Rubens k - Qualquer Merda que der na Telha

E você acha que consegue me machucar? Você não consegue. Eu já fui machucado o suficiente. Desenvolvi anticorpos. Meu corpo pode apresentar algumas manchas roxas, mas é só por fora. É impossível você me abalar, me atingir. Desista. Meus sentimentos também são invulneráveis. Por dentro sou todo invulnerável. Aprendi com a minha vida, com pessoas como você. Pode levar o que você acha que deve levar. Nada do que está aqui dentro dessa sala vai me fazer falta e você é do tipo que dá valor pra essas coisas. Pode ficar com elas. Se quiser pode levar os quadros também. São fotografias mortas de um tempo que eu não sabia que estava vivo. Só preciso das paredes mesmo. Paredes brancas, para lembrar o quanto posso ser perigoso se ficar livre, a solta por aí a fora, com toda essa minha vida debaixo dos meus pés.  

rkjazz - 28/12/2005 às 03h54 PM

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Jack London's gravesite, where his ashes were placed under the large volcanic rock deemed too large to use in the building of Wolf House.


Photographer unknown. Public domain.

Este é o lugar em que eu quero viver para sempre, se para sempre existir.

Este é o lugar onde vou sempre estar de pés descalços, de bom humor.

Este é o lugar onde a solidão não vai me alcançar.

Este é o lugar onde terei alguma paz.

Nenhum barulho, nenhum sussurro, nenhum gemido.

Este é o lugar onde nada mais vai acontecer.

Onde os sentidos terminam.

Onde os desejos cessam.

Onde o sofrimento se vai com o estalo de um galho quebrando e não volta mais.

Onde as conquistas perdem todo o brilho.

Onde as lembranças apodrecem lentamente e desaparecem em meio a folhas mortas.

Onde apenas luz e sombra servirão de tela.

Onde poderei, quem sabe, aprender tudo de novo.

 


rkjazz - 27/12/2005 às 02h33 AM

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Deu no site de cultura Speculum (SP). TG fez um dos três melhores álbuns do ano. 
 
 Melhor álbum nacional:
1. Violins, Grandes Infiéis
2. Lobão, Canções dentro da noite escura
3. Terminal Guadalupe, Vc Vai Perder o Chão
 
A lista completa dos melhores do ano, segundo os críticos do Speculum, pode ser vista aqui: http://www.speculum.art.br/module.php?a_id=1651

rkjazz - 24/12/2005 às 06h23 PM

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Desista! Deus se cansou dessa baboseira toda, dessa ladainha que paira no ar, desse muro invisível de lamentações e colocou os coturnos, a jaqueta de couro, óculos escuros e resolveu sair por aí detonando todos os otários que cruzarem seu caminho. Deus tem direito, ele foi tolerante demais.  Ele foi um cara legal quando você tava com aquela merda de .38 engatilhado dentro da boca. Ele foi mais que bacana quando o ferro que segura o chuveiro cedeu com o peso desse teu lindo corpo. Ele foi gente fina quando aqueles caras te cercaram sozinha, às 3 e pouco da manhã, naquela rua deserta e escura – e você bêbada. Mas você continua, como os outros bilhões – ou já serão trilhões – a torrar o saco dele e de quebra o meu. Por que as mulheres rezam tanto? Por que elas sofrem tanto? A segunda rodada é por minha conta, mete bronca, Deus.

rkjazz - 22/12/2005 às 12h48 AM

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O mundo a minha volta é uma coisa disforme, mas eu comprei fósforos e posso incendiar todos esses conceitos. Não tenho razão em muitas das coisas que faço, mas também não carrego nenhuma tábua de salvação escrita por quem quer que seja. Não tenho colete a prova de balas, nem QI de 150. Sou um cara que pode andar na rua sem que ninguém me reconheça, e isso eu considero um privilégio. Eu sou alguma coisa próxima de você quando comemos cachorros quentes às três e meia da manhã e temos planos de enforcar o trabalho em nome de um bom sono.

Eu martelo na cama tentando sonhar, eu martelo as três da tarde tentando não fechar os olhos, eu martelo com meu pau dentro de você a noite inteira e tem o dia seguinte pela frente. Estamos a 150 km por hora e a estrada agora só tem retas, mas eu sei que vai aparecer uma curva por aí a frente, uma curva que vai mudar tudo, pra mim e pra você. Talvez a gente nasça de novo, talvez eu consiga contornar com os pneus derrapando e a mureta que nos separa do abismo só risque um pouco o para lamas. Talvez a gente descubra o que tem lá no fundo do abismo e de nós mesmos.

rkjazz - 21/12/2005 às 12h48 AM

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Cheguei ao fim do livro de Edward Bunker - Educação de um Bandido - e uma melancoia se instalou em mim assim que o coloquei de lado. A vida segue, um pouco mais sem graça com a falta desse grande cara por aqui para nos contar as suas histórias. Obrigado A20284B, um dia a gente conversa sobre tuas coisas.

Posso sentir a bela rotina da vida sendo aspirada por pulmões enfumaçados de erva.

Posso sentir o ar sendo deslocado por grandes caminhões em estradas expressas.

Posso sentir aos primeiros pingos da grande tempestade antes mesmo deles tocarem o solo, no alto de um grande arranha-céu dourado, com meus braços abertos e as palmas das mãos viradas para cima. Posso sentir a maciez do tecido da tua blusa – de que lugar do mundo ele veio? 

Não sei por quanto tempo vou saborear tudo isso, mas acho que sou feliz, até certo ponto, por conhecer essas sensações.

Não me moldei em momentos felizes – claro que os tive também, mas não foi neles que encontrei a coragem.

Por isso acho uma grande injustiça a velhice vir com uma sentença de morte, de falência dos órgãos e sentidos.

Vou odiar esquecer as coisas que amo, as coisas que aprendi a amar.

Vou odiar olhar teu rosto e não te reconhecer.

Vou odiar esquecer o teu perfume e os momentos que passamos juntos.

Vou odiar não poder levantar meus braços e pernas quando bem entender para poder te alcançar, mas por hora, posso só pedir perdão por não lembrar do teu aniversário?

 

rkjazz - às 01h56 AM

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Parecia morto

Talvez já estivesse no fim

Quem dera

Um negro cego pobre e louco

Um nordestino

Num oásis

De ilusão

Seis e trinta ainda vazam emoções

Nas ruas bêbadas da manhã

Que se mistura

Sobra de puta dos bares da noite

Dona das pernas das ruas

Me gusta la Augusta

Me gusta o que sobra e se mistura

Mendigo enrolado em papel

A água o balde o rodo

A esperteza do fraco que corre

A gravata que se molha

No balcão do café

Entre passos

Passa a pata do cão

Do cachorro vagabundo

Que sabe de tudo

E finge não ver

O drama do caos no grafite

O saco de cola na mão

E a dama se repondo me disse

Que é dona

Das pernas, das ruas

Le gusta la Agusta?

Me gusta la Augusta ta

Me gusta o que sobra e se mistura

 

Carlão

rkjazz - 17/12/2005 às 11h55 PM

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É...É natal...é sim...tá bom...

 

Enquanto bebo, algumas pessoas desaparecem seqüestradas em algum lugar do mundo. Enquanto bebo, algumas pessoas se conhecem e ficam excitadas com o pensamento de como será a primeira trepada. Enquanto bebo, alguns acidentes com vítimas leves acontecem, algumas bombas explodem em Israel ou na Palestina. Enquanto bebo, os jornais se acumulam embaixo da porta. Enquanto bebo, penso que a medicina não leva a depressão realmente a sério, só como mais um lucrativo negócio. Enquanto bebo – e sóbrio também – sou a favor da eutanásia.  Enquanto bebo, penso que existem mulheres demais, sozinhas demais com suas bolsas e cartões de crédito ocupando o lado esquerdo da cama. Enquanto bebo, penso que amei poucas mulheres e por isso não tenho Aids – será por isso mesmo?  Enquanto bebo, penso que minha barba branca me denuncia antes mesmo do primeiro olá. Enquanto bebo, penso que meus amigos têm o mesmo problema que eu e minha barba. Que eles deveriam ter mulheres da mesma idade que eles. As mais novas são muito impulsivas e dominadoras e se metem em tudo – olhem só a daquele albino maluco, uma verdadeira vaca. Enquanto bebo, penso que acredito em Deus, mas contanto que ele não me sacaneie a ponto de eu mandar ele a merda. Enquanto bebo, acredito em sorte e que eu não a possuo. Enquanto bebo, penso que Bunker e Buk nos deixaram órfãos. Enquanto bebo, penso que deveria ter apertado a mão do Marcos Prado e conversado mais sobre besteiras do que sobre literatura – fui um mala, com certeza. Enquanto bebo, penso que meu futuro vai ser muito miserável se eu chegar a ter um futuro. Enquanto bebo, penso que meu estômago não vai agüentar outra noite como essa e que eu vou ter de prometer – mais uma vez mentir – que vou parar de beber. Enquanto bebo, penso que ela gosta mesmo de mim, senão o que ela estaria fazendo ao meu lado todos esses anos? Enquanto bebo, é a única hora que eu me permito sonhar, que eu me dou ao direito de ser sincero, sou quase outra pessoa, e acho que foi por ela que você se apaixonou, não por mim.

rkjazz - 16/12/2005 às 06h25 PM

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Feliz Natal...será mesmo!?

 

Olha, eu tenho feito o possível. Não pense que pra mim tem sido mais fácil ou difícil. Não é essa a questão. Tenho tentado me manter fora de encrencas, tenho tentado respeitar o ar a tua volta, tenho escrito sobre isso e o quanto me incomoda, mas tenho notado que a maioria das coisas, das nossas conversas, ficaram paradas, estagnadas dentro de nós mesmos. Hoje saí de casa. Fui até ao mercado comprar cerveja e o que vi foi o bastante do mundo. Nessa época do ano as pessoas tendem a ser mais sensíveis. Eu até acho isso bacana, se elas não esperassem que Papai Noel estivesse de olho, que Deus estivesse de olho em suas boas ações e que isso deve contar alguns pontos a mais na busca pelo paraíso. Sei exatamente o que você vai dizer – “Você e a tua pretensão em entender o mundo”. Não é isso. Basta olhar e ver. Está tudo ali, ou você pensa que a vida é uma sucessão de natais ou coisa do gênero? Já disse que isso aqui não me importa. Estou até relendo J.D. Salinger em busca de algumas respostas, em busca de alguma coisa que possa ter passado despercebida. Nada passou despercebido. Este é o fato. O que vamos fazer com isso daqui pra frente é que seria a nossa grande resposta. Não consigo pensar em nada realmente bom pra te dizer. Nada que me convença. Nada em que não transpareça a minha indiferença a essas questões tão importantes do mundo agora e futuro.

rkjazz - às 06h05 PM

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Eu poderia ter te pedido em casamento, mas as tuas boas maneiras me desencorajaram. Eu poderia ter casado com você, mas no mundo que vivo não é nada saudável comparecer ao churrasco da família, domingo pela manhã, enquanto eu ainda estou de porre e conversar amenidades com o alcoólatra do teu pai. Eu poderia ter casado sim com você e ter tido um belo par de garotos, mas tive o desprazer de conhecer a tua mãe. Isso acabou com todas as tuas chances.

rkjazz - 15/12/2005 às 07h02 PM

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Fatos da vida.

 

A minha primeira visita a um aquário, desses grandes, que a gente anda entres os tanques com diversos peixes de todos os cantos do mundo, foi uma verdadeira decepção. Pelo menos pra mim foi. Passeei por horas entre espécies exóticas de nomes impronunciáveis. Vi polvos e arraias. Vi elefantes marinhos, peixes-tigres, lontras, tudo que se possa imaginar. Já estava entediado com toda aquela silenciosa fauna aquática quando dei de cara com o tanque dos golfinhos. Me disseram que ia ter uma apresentação daquelas criaturas. Sentei e esperei por uns bons quarenta minutos. Então eles surgiram de uma pequena comporta do lado oposto onde eu estava. Um a um iam aparecendo no grande tanque. Cinco no total. Os treinadores saíram bem abaixo das cadeiras, do meu lado. Começou uma série de acrobacias e jogos com bolas coloridas. A cada manobra realizada, eles ganhavam o que parecia ser sardinha morta. Isso durou uns vinte minutos. Nada acontecia a não ser manobras e saltos impossíveis pra um humano. Certo, isso acabou com o pouco de consideração que eu tinha por essas criaturas. Golfinho me lembra o Flipper – aquele dócil “peixe” que livra os humanos das cagadas que eles se metem. Uma Lassie das águas. Mas isso é só no cinema – pensei. Na natureza eles devem ter algum orgulho próprio e, numa hora qualquer, vão se rebelar contra essa vergonhosa apresentação. Que nada. Pareciam até felizes por fazerem piruetas e saltos, seguirem as ordens e não terem de pescar o próprio peixe.  Eles perderam – pensei. Na saída do tanque dos golfinhos, perguntei para uma espécie de guia do lugar onde estavam os grandes brancos. A resposta foi que eles não tinham mais tubarões brancos no aquário. Eles davam muitos problemas e aconteciam muitos acidentes. Eram indóceis, não aprendiam os truques que os treinadores tentavam lhes ensinar e, além de tudo isso, começaram a devorar os outros peixes do aquário. Era disso que eu estava falando.

rkjazz - 14/12/2005 às 08h24 PM

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Ninguém nasce ladrão, mas aprende quando percebe que a cadeia é só um lugar em que o tempo passa lento, e o que se pode ganhar em um roubo bem sucedido é muito maior do que uma vida inteira de trabalho honesto. Uma vez na rua, os dedos doem pra cometer outro crime. É a natureza aprendendo a sobreviver. Ninguém nasce sabendo usar os punhos. Só quando é forçado a trocar alguns socos no escuro - depois de uma boa surra - é que o talento aflora e os golpes vão se tornando cada vez mais fortes e precisos. É a natureza sendo aprimorada. Ninguém nasce querendo ter câncer nos ossos. Apenas continua a passar os dias fazendo o que sempre fez, cuidando dos interesses pessoais e da família, até que as dores cheguem a um nível insuportável e o médico receite morfina e diga para tomar cuidado durante caminhadas. É a natureza chegando ao limite. Ninguém nasce querendo ser infeliz ou buscando a morte. Isso está fora de questão, mesmo por que, o que é de fato a felicidade ou o paraíso?

rkjazz - às 07h35 PM

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Ele gostava de diamantes. Ela queria ser freira. Ele não podia passar em frente a uma joalheria que seu corpo todo tremia descontroladamente. Ela não podia ver a imagem do Cristo crucificado que as lágrimas escorriam pelo seu rosto, denunciando a profunda tristeza da sua alma. Ele tinha uma .45 embaixo do banco do motorista. Ela carregava o terço com o crucifixo entre os dedos. Ele disparou tantas vezes quanto eram os cartuchos no tambor da arma. Ela tombou do outro lado da rua. Ele conseguiu fugir com a confusão que se instalou ao redor dela. Ele nunca a conheceu e nem vai – se ela tinha o paraíso, ele ainda precisaria se arrepender muito para encontrá-lo. Ele nunca soube nem vai saber, mas ela o perdoou por isso e agradeceu, com um breve sorriso entre os lábios, por ele ter colocado ela mais próxima da santidade.

rkjazz - às 12h31 PM

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Sobre comentários felizes...

Vou produzir contos felizes, mas só depois de levar o lixo para baixo e aquelas criancinhas devorarem tudo até o cabo – é isso que chamamos de reciclagem?

Vou escrever textos felizes sim, mas só depois de convencer o meu amigo que pegou uma dessas pragas modernas, incuráveis, não pular pela janela aqui de casa. Vou contar histórias felizes de amores felizes com finais felizes, mas só depois de ler essa merda de matéria sobre superlotação de presídios - onde a curra corre solta - falando sobre o indulto de natal, onde todos são mandados pra casa, pras suas famílias, e acabam não voltando mais pro xilindró. Claro que vou fazer coisas mais felizes, mas vou esperar a poeira toda baixar pra tentar ver claramente que porra de felicidade é essa. Não me lembro de conhecer pessoas felizes. Não me lembro de pessoas felizes fazendo algo que eu me importe. Não me lembro de pessoas felizes se importarem com o que eu penso. Acho que vivemos em mundos diferentes. Só isso.

 

rkjazz - 12/12/2005 às 08h32 PM

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As pessoas normais caminham ao meu lado na rua. Elas não sabem que existe um veneno sendo expelido aos pouco no meu sangue, indo direto pro meu cérebro. Que de uma hora para outra, posso estar tão alto que começo a esmagar crânios só pelo prazer de ver o que está dentro vir pra fora. Estou entrando numa farmácia agora. A dor de cabeça está insuportável. Tenho tentado me manter dentro das regras que eles estabeleceram nesta sociedade ridícula. Quem quer trabalhar como escravo até ficar velho e fudido, esquecido em um canto qualquer? Quem quer ser pai de uma aberraçãozinha que caga e grita pela casa e que, depois, quando consegue segurar uma arma, pode te meter um tiro na cara? Quem quer dirigir essas porras de carros automáticos que tem um V8 embaixo do capô e um limitador de velocidade pra dar segurança aos caras que atravessam na faixa? Quem quer uma boceta o tempo todo abrindo a boca pra te realçar os defeitos, pra te comparar com o restante da escória de “paus duros” que enrabam ela depois do almoço? Quem quer tudo isso que é louco, eu só vejo uma maneira de aplacar esse sofrimento todo. Só vejo uma janela que dá direto ao lado do ouvido esquerdo de Deus. Acontece que eles, o restante dos malucos que são considerados normais, os que mexem com as leis, com os papéis, não entendem assim.

rkjazz - 10/12/2005 às 11h58 AM

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Gosto de ver mulheres sendo torturadas, sodomizadas. Gosto de ver o excremento saindo do cú, indo direto pra boca aberta. Gosto de ver pedaços de gente espalhados pela casa. Gosto de oferecer esses pedaços em sacrifício a um deus qualquer – isso não interessa. Gosto de arrancar as unhas dos meus próprios dedos. Me dá uma sensação de alívio. Gosto de cortar os cabelos com gilete velha. Me disseram que é por tudo isso que eu estou aqui nesse hospício, cagado em um canto, coberto com folhas de jornal. Deve ser por isso que eles me mantêm chapado o tempo todo. Mas eu não sou louco, só tenho uma maneira diferente de encarar as coisas.

rkjazz - às 11h58 AM

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O duelo

 

- Um duelo! – Vociferou o “Um” – Precisamos de um lugar!

Então saiu o “Um”, o “Dois” atrás. “Um” virava à direita, depois à esquerda. “Dois” atrás. “Um” parou em frente a uma porta. Enfiou a chave, girou e entrou. “Dois” atrás. “Um” parou em frente a um armário. Enfiou a chave na letra b, girou e sacou lá de dentro uma sacola de mão com motivos florais. “Dois” observou imóvel, impassível. “Um” Caminhou até uma pequena mesa de armar e colocou a sacola sobre ela. Depois dos números certos, o cadeado de segredo se abriu. “Um” correu o zíper e escancarou a sacola como se fosse uma grande boca negra e fez um gesto de cabeça para o “Dois”, que da onde estava não podia ver os dois .38 pretos canos longos que estavam lá dentro.  “Dois” olhou para a sacola, armou os punhos e, no que achava ser a melhor fala de velho oeste, disparou a voz lá de dentro, lá do fundo da onde ele sabia que ela vinha.

- Essa sacola é pequena demais para nós dois!

rkjazz - 09/12/2005 às 04h45 PM

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“Aprendi que atrás das grades era bom ter uma reputação tão violenta quanto a de qualquer outro, mas não a de ser louco, não de imprevisível.Você não deseja o medo, pois o medo pode tornar até um covarde perigoso. Em um mundo sem instituições civis e sem o recurso às autoridades instituídas, era preciso que os outros pensassem que tinham a capacidade de proteger a si mesmos e aos seus interesses.”

 

Edward Bunker

rkjazz - às 01h01 PM

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Tava lembrando do Bunker, dos seus insucessos, das suas fugas para uma liberdade que nada mais era que outra prisão com normas não tão claras, onde um bom jab faz a diferença entre a vida e a morte. Tava lembrando do velho Buk e suas mãos frágeis, com as quais ele teve que se defender não só para escrever. Tava lembrando de Jaco Pastorius, que no auge de uma carreira brilhante, em meio a um turbilhão de incertezas e sucessos, descobriu que a vida não tinha mais nada pra lhe oferecer que uns bons chutes e porradas na cara. A vida é assim, intolerante, insuportável, mas se você tiver uma boa esquiva, você consegue beijar a sua garota antes de se deitar. Só gostaria que a coisa se resolvesse com os punhos, que ficasse dentro daquela regra das ruas que a gente respeita. Nada de pedras, nada de paus ou facas, só os punhos. Não foi bem o que aconteceu, mas pensando melhor, estou surpreso de ainda estar aqui, escrevendo. Realmente, sou um cabeça dura. Meu pai tinha razão. Sempre teve.

rkjazz - às 12h02 PM

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A cada gole que eu bebo, eu penso no fim. A cada noite que eu deito a teu lado, eu penso no fim. A cada passo que dou na rua penso que o próximo poderá ser o último dentro dessa madrugada. Não sou nenhuma espécie de maníaco com compulsão pela morte não. Apenas quero estar preparado pra quando ela chegar pra mim ou pra você. Apenas quero olhá-la nos olhos.

rkjazz - 08/12/2005 às 02h57 PM

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Se Deus quiser me ajudar, ele sabe onde me encontrar. Se o Diabo quiser me ajudar, ele também tem meu endereço. Agora, se você quiser me ajudar, me faça um favor: fique bem longe, de preferência a uma distância segura onde meus punhos não possam te alcançar. 

rkjazz - às 12h13 PM

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Bunker  no corredor da morte...

Se eu pudesse te falar que te amo, você não ia acreditar. Ia ficar com a boca torta, com a cara de desconfiança de quem é intimado a ser fiador de uma roubada qualquer. Pois eu te amo mais que a mim mesmo e não preciso ser preso constantemente por isso – obrigado pela fiança. Não preciso de um padre para jurar isso. Nem de Deus eu preciso pra saber que é de você que eu gosto. Não acredito em inferno também, então não tente me convencer. Quando marcamos a data? Que data? Nesse lugar que eu estou, eu só vou durar alguns dias. Depois o estado vai ter se livrado de alguma coisa indesejável, mas eu te amo, para sempre.

rkjazz - às 05h20 AM

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A angústia me cega. O ego me cega. Não sei se você percebe, mas estou cego. Cego de dúvidas. Cego de certezas. Estou cego. Não sei como atravessar a rua. Não sei como é o teu rosto. Não sei onde está a tua mão. Estou cego!!! Procuro alguma coisa perto de mim e tropeço, e caio e levanto e peço desculpas para o que acho que no fundo era uma árvore. Estou cego. De uma vez por todas. Estou cego para sempre. Você está feliz agora?

rkjazz - 07/12/2005 às 02h57 AM

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Como eu disse aqui, estou lendo "Mal pela Raiz", do genial Jorge Cardoso. É impossível passar impune pelas coisas que ele escreve, pela vida que ele descreve. Eu não seria diferente. Fiz esse texto para tentar explicar isso. O que acontece comigo depois que eu leio Jorge Cardoso. Imaginei uma conversa com ele, como eu contaria certas coisas pra ele, se eu fosse ele. Claro que não é culpa dele. É minha. Dedico a uma grande amiga, que está lutando pra se libertar dela mesma. Estou torcendo por você. Que Deus, seja ele quem for, nos ajude. Até quando ele quiser ajudar. Seremos gratos.

 

 

 

Não sei que nome dou pra ela, essa coisa que me aperta a garganta. Sei que ela esta aqui agora e de noite também. Não sei como ela entrou – tenho o hábito de família de conferir todas as portas e janelas antes de deitar - mas entrou e fica se escondendo embaixo dos móveis. Às vezes vejo um pedacinho dela sumir por baixo do rodapé. Uma amiga me disse de uma simpatia. Coisa pra afastar ela da minha vida de uma vez por todas. Não gosto dessas coisas; “macumba” – falei pra mim mesma. Mas não agüentava mais ela ali, esperando eu cair no sono pra me sugar o sangue, pra me fazer ter um orgasmo daqueles de grudar no teto. Me deixando sozinha depois, com os sonhos ruins, os pesadelos e o suor que molha o colchão todas as noites. Acordo todo dia mais magra e com manchas negras pelo corpo todo. Estou sumindo por conta dela. Aceitei a proposta e me cerquei dos conhecimentos do Pai Elias. Ele disse que tinha que ser feito o quanto antes, caso contrário, eu estaria dominada por ela para sempre. Era coisa forte, ele dizia. Coisa do outro. Não sei quem era o outro. Nessa hora nem sei quem eu mais era, mas aceitei a ajuda – era a única que tinha. Cheguei de tarde, depois do trabalho. Na sacola as coisas pra acabar com ela. Pai Elias me falou que ela é muito sagaz, então tem de ter cuidado. Entrei escondida. Tem que pegar ela desprevenida. Olhei pelos cantos. Eu não a via, mas sabia que ela estava ali, lambendo as pernas peludas, arrotando gosto de cú molhado. Eu sabia que ela estava ali.  Podia sentir o sangue, que antes era meu, nela, batendo o coraçãozinho infeliz daquela criatura. Meu sangue. Não agüentei e gritei que queria tudo de volta. Meu sangue, minha vida como ela era e eu a amaldiçoava. Queria ser eu mesma nem que fosse só mais uma vez, a última vez. Abri a sacola e coloquei as coisas no chão. Ela percebeu o movimento. Podia sentir os batimentos do coraçãozinho acelerando. Comecei sem perder muito tempo. Ela começou a andar em volta da sala, escondida entre as frestas dos tacos, embaixo das poltronas, do tapete, espreitando, confusa. Podia sentir, eu sabia. Cortei meu dedo e ela soltou um grito agudo. Me assustei mas não parei de cortar. Quanto mais cortava, mais ela gritava e eu ria. Sabia o que estava fazendo – estava acabando com a desgraçada. Não parei de cortar, o sangue nas paredes, no tapete, a felicidade voltando aos poucos, nebulosa como um abraço de irmã contra o sol. Podia sentir ela indo embora dentro de um turbilhão de tristeza, de pesadelos, de câimbras, de paixão, de noites de espera, de castiçais quebrados, de formigas em cima da pia, de falsa promessas,  de mim mesma.

rkjazz - 02/12/2005 às 02h16 PM

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Acabei de escrever isso, estou bem bêbado e não vou corrigir. É isso.

 

Ultralyrics

 

Noite paulistana em Curitiba. Estranhei as pessoas presentes, falantes, as confraternizações, os amigos distantes bem perto. Parecia que eu ainda estava lá na Praça Roosevelt, em meio aos novos amigos. Parecia que eu ia encontrar o Bortolotto ali no balcão, conversando sobre literatura, teatro ou a bunda daquela gostosa que não era amiga de ninguém do nosso naipe. Curitiba não é sempre assim. Obra do Felipe Hirsh, que até onde eu sei, organizou  o mais  novo lançamento póstumo do Marcos Prado. Não conheci o Marcos pessoalmente. Não fiz parte da vida dele, só lembro que um dia, quando fui cumprimentar o cara, ele usava luvas de tricô e não tava tão frio assim. Pele ruim, doença de pele, sei lá, mas isso me impressionou pacas. Achei que ia pegar aquela merda - era o auge da AIDS - e não dei muita bola pro cara que tava enchendo a cara - como depois fui saber e entender que era sagrado. Olho a foto dele no livro e me parece que era boa pessoa. Um cara bonito até, mas que tem uma fama ruim. Ruim para os padrões de comportamento provincianos, como é norma em Curitiba. Engraçado esse cara ter escolhido Curitiba pra fazer das suas “Vou acabar com vida de um vício por mês/fumo meu último cigarro pela primeira vez/treme a minha mão por um copo pela última vez/nunca mais encontrei canalha da cannabis/acho que ela foi morar na tumba do lápis*/do pó eu vim e venci/e não retornarei ao pó/Curitiba você é a única droga que eu vou admitir na minha vida”. Justo essa cidade careta abriga um louco como o Marcos. Tinha lá muita gente que conheceu ele, a filha autografando os livros – falei que eu queria mesmo era uma dedicatória do cara, mas tava difícil de conseguir. Hoje leio os poemas dele e descubro – claro que já tinha descoberto muito tempo antes – que ele é um grande compositor. Que ele é o cara que escreveu “Penúltima” – comprem o livro e descubram do que eu to falando. Essa letra me perturbou por muito tempo. Queria ter escrito isso e, se o Marcos não tivesse chego antes, não tivesse bebido tudo que bebeu antes, não tivesse comido todas as mulheres que dizem que ele comeu antes, não tivesse sido filha da puta o suficiente para, simplesmente escrever a letra que eu queria ter escrito antes de mim, eu poderia ter dedicado a letra para ele.  Olhe só o que ele não me fez fazer por ele – claro que ele estaria cagando pra isso. Mas eu não o conhecia. Conheço os seus amigos. Isso eu conheço. Conheço BAAF (Beijo AA Força), que foi a banda que me influenciou quando eu era moleque. Os caras eram punks em Curitiba e eu vi uma luz no fim do túnel. Achei que era por aí então a tentativa de fuga mais rápida. A saída pela esquerda, como diz o “Leão da Montanha”. Foi uma noite mágica, pelo fato de eu estar mais perto dessas pessoas. Por eu estar mais consciente do que é ter uma vida pra ser vivida. Por eu estar cagando com todo o resultado que isso vier a ter. O Marcos morreu numa noite de ano novo, com 36 anos. É o que diz a orelha do livro, por Felipe Hisch – talentoso diretor e pessoa muito sincera. Eu tenho 37. Acho demais para um cara que não tem muita coisa pra dizer. Acho que essas pessoas que tem alguma coisa pra falar, uma vida voltada ao egoísmo de serem sinceras consigo mesmas, deveriam ficar mais tempo para nos mostrarem a porta dos fundos, ou alguma alternativa. Mas isso seria pedir demais. Ninguém aqui quer ser realmente salvo de nada. Quando leio o texto do Mário, na última capa do livro, isso está bem claro. É preciso viver para sofrer as conseqüências. É preciso sofrer as conseqüências para ser alguma coisa melhor que apenas você mesmo. É preciso saber transformar a realidade em sonhos, mesmo que esses não sejam tão bem educados. É preciso fazer desses sonhos o dia seguinte. Se você não souber do que eu estou falando, se acalme você ainda tem um tempo sobre a terra para descobrir. Mas seja rápido.

 

* Lápis, compositor e músico de Curitiba. Pai do Grafite, também músico e compositor (isso é sério).

rkjazz - 01/12/2005 às 02h02 AM

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