Rubens k - Qualquer Merda que der na Telha

E sai a Lista de Bandas do Beradeiros 2006 

(...) Mas, a melhor surpresa foi Terminal Guadalupe, a banda mais bem escolhida de todas, a única a ser aspirante a grande nome do independente nacional, tendo sido citadas em vários jornais e sites especializados e que é citada também em vários prêmios e festivais, banda ascendente na cena, fora o Porongas que são da região, a única dessa lista de banda de fora.(...)

                                                                                                                   Vinicius Lemos (Fun Rock )

Quer ler na íntegra? Aqui.

     

Confira a escalação do festival

- Bandas de Porto Velho: Bedroyt, Bicho du Lodo, Ciclo, Coveiros, Detroyd, Ferro via Rock, The Cofres, Leão do Norte, Made in Marte, Merda Seca, One Weak, Quilomboclada, Rádio ao Vivo, Scrooff, Semáforo 89, Sortilégio, Ultimato.

- Bandas do interior do estado: Enmou - Vilhena, Neurose - Vilhena, CPF zero zero - Cacoal

- Bandas de outros estados: Los Porongas (AC), Silver Cry (AC), Dead Flowers (AC), Guerrilha (AC), Bloodia (AM), Deceivers (DF), Ressonância Mórfica (GO), Terminal Guadalupe (PR).

 

Quer pegar a sua cédula e votar no TG para o prêmio Dynamite (melhor álbum Pop)? Aqui.

                                                                                                                                                         

rkjazz - 25/05/2006 às 03h45 PM

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E Tem TG no  Jornal do estado...Grande Adri Perin.

Leia aqui

rkjazz - 24/05/2006 às 01h08 PM

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Caramba, acabei de saber que fomos selecionados - Terminal Guadalupe - para um festival em Porto Velho, RO. Amazônia, aqui vamos nós...

Festival Beradeiros 2006

rkjazz - 18/05/2006 às 07h20 PM

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                                                                                  Ella e Duke Elington

                                                                                                                     

 

É doce morrer com jazz*...

É pedir muito que as pessoas entendam que preciso de um pouco de entusiasmo, de atenção? É pedir muito que meus vestidos tenham, pelo menos, um dedo abaixo do joelho? É pedir muito que a noite nunca acabe e que não tenhamos, nunca mais, que sair daqui? Parece que sim, e estou acostumada a ouvir não. Não, parece ser uma palavra importante, que todos que conheço repetem, e repetem. Não, é uma palavra com um poder incrível, parece nos diminuir no momento em que é dita. Não, soa com se estivéssemos sendo castigados por ter feito a coisa que achávamos que deveríamos ter feito. Não, soa e ecoa entre um gole de bourbom e um cigarro, um terno caro, um carro dourado, um solo de sax. Não, soa pelo encanamento das grandes banheiras dos brancos, onde eu não deveria estar agora. Não, soa como uma colher de doce, roubado na cozinha, quando pensávamos que ninguém estava olhando. Pois foi isso que você me tirou, o doce da minha vida. Agora eu aprendi a dizer não.

*Título de um poema de  Mário Bortolotto

rkjazz - 16/05/2006 às 09h51 PM

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                                                                                                                                                               Dexter Gordon

 

 

 

Round Midnight

 

 

Nossos destinos não são iguais, não podem ser. Penso isso enquanto ando pelos corredores vazios do supermercado. Mudaram os frezers de cerveja, agora ficam lá no fundo, perto dos defumados. Não sei por que fizeram isso, deve ter uma estratégia de marketig escondida entre o lugar de antes e o de agora. A vida é um grande marketing, contra ou a favor, não interessa. Penso nas ruas vazias lá fora, no frio – isso nada a tem a ver com alguma estratégia. Penso que vão sobrar escombros depois que a guerra passar. Penso que vão sobrar desculpas depois de uma noite atravessada. Penso que o pouco de compaixão que existe nas pessoas, sai com OMO dupla ação. Penso que nunca me dei ao direito de sair do trabalho e comprar cervejas e beber sozinho em casa. Sempre quis dividir, elas e o momento, com alguém. Penso que seria o primeiro voluntário pra uma viagem pra Marte, só de ida, mas de primeira classe. As ruas não são mais as mesmas. Tem uma gente estranha andando nelas agora. Ou será que sou eu que saí delas? Coisa nenhuma está no lugar de antes. Nem o cara do sinal, que vendia jornais, está lá, firme no seu desemprego. Nossos destinos não são iguais, não podem ser. Mas eles se atravessam e confundem tudo.  Depois da quinta cerveja, Dexter me dá conselhos impagáveis de como se seduz uma mulher. Não sou bom em sedução. Sou bom em abdução. Resolvi deixar os bares de lado hoje. Não saberia o que falar com as pessoas, e isso invariavelmente acontece. Resolvi fazer um filme maluco de volta pra casa. Um filme aonde os personagens nunca vão se conhecer, se encontrar, ter uma história, um meio e um fim. Eu sei, seria um fracasso de bilheteria. Mas seria mais ou menos igual a tudo que eu faço.

rkjazz - às 09h12 PM

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E o Bortolotto disse tudo... 

 

 

NÃO VOU MORRER NA MINHA KITCHENETE

 

A ordem agora é morrer nas próprias casas. Uma das frases que mais me marcou nas últimas semanas foi justamente a frase de Sara Joanna Gould, uma americaninha de 21 anos que tá fazendo intercâmbio no Brasil. Ela falou pra Revista da Folha: “O que me surpreende não é a pobreza, comum na América Latina, mas sim a riqueza, o número de milionários num país como o Brasil”. Sacaram? Vocês que agora estão escondidos em suas casas com medo de saírem às ruas pra tomar uma inocente cerveja ou pra ir à um cinema depois de um dia cansativo de trampo e pavor? Vocês sacaram que isso que vocês estão passando nesse momento é rotina nas favelas cariocas? O toque de recolher, o abaixar as portas, o rezar baixinho pra que ninguém ouça. Às vezes tão baixinho que nem Deus ouve. E a gente faz de conta que tá acontecendo longe daqui, num país distante de alguma fábula de terror. E agora você tá vendo os buzões incendiados, as estações de metrô metralhadas, e você tá dentro do trem fantasma. E você pergunta pra mim o que eu penso disso? Eu não sou político, não faço parte de nenhuma igreja, não sou banqueiro nem empresário. Não lucro com nenhuma espécie de proibição. Mas tem gente lucrando, não tem? O pouco dinheiro que ganho trabalhando é pra pagar as contas e comprar livros. E você vem perguntar pra mim o que eu acho disso? Você acha que isso aí é só uma guerra de polícia e bandido? Faz a autópsia da situação, Brother. Com atitudes meia boca não vai acontecer nada de fato. Não vou gastar meus 1.600 toques com palavrório empolado. Libera tudo meu irmão, divide o bolo, libera as drogas, a pirataria e a putaria, deixa todo mundo trabalhar livremente e serem donos de suas próprias vidas. Oportunidade pra todo mundo melhorar de vida. Iguala as condições pra batata não assar. Mas é claro que isso não vai acontecer, não é? Então não perguntem pra mim o que eu acho disso. Nunca perguntem para alguém libertário como eu o que acho de algo assim. Você tá com a bunda no inferno e quer manter a dita refrigerada? Eu tô em casa, mas prefiro optar por não morrer aqui. Ainda posso fazer isso.  Vou sair pra tomar uma cerveja. Se eu ainda tivesse um pai, arrastava ele junto comigo. Meu nome é Mário Bortolotto e não há nada que eu goste mais do que um pingado e um pão com manteiga depois de uma noite de sinuca.

 

                                               (Mário Bortolotto)

rkjazz - às 01h46 PM

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Não tenho mais meu fretless. Também não tenho mais quinze anos e a inocência que tinha quando achava que ele ia mudar alguma coisa em mim. Talvez tenha mudado, o fato é que me apego demais as coisas, as pessoas, a tudo que esbarre em mim por onde passo - fazer o quê? Tinha dezoito quando me mostraram Pastorius. Fiquei em choque. Era aquilo que eu queria fazer. Nunca me disseram que dava tanto trabalho assim, tanta falta assim, tanta necessidade de não parar mais pra ver no que dá. Passaram vinte anos. Tenho outro baixo (por ironia do destino, vermelho e preto), tenho uma casa pra morar, tenho uma mulher que ainda acredita em mim, herdei uma gata ranzinza que é apaixonante, tenho uma banda nova (ainda monto bandas pelos bares, aquelas que nunca acontecem de fato depois que a bebedeira passa), tenho amigos passionais que, acho, são a melhor coisa que pode acontecer prum cara como eu.  Quando a gente tem quinze anos, que foi quando eu comecei a tocar, a gente acha que o sucesso é só uma questão do mundo descobrir a tua genialidade. Quando o tal sucesso não chega, você, do alto dos teus trinta e oito, mas achando que tem quinze, diz que o mundo é mesmo uma merda e que não entendeu a tua obra genial. Eu não sou genial. Não sou uma coisa nem outra. Nem esforçado eu sou, mas tenho uma porrada de gente bacana e genial ao meu lado. Acho que por isso, às vezes, sou confundido com eles.  Pastorius morreu - Auto-destrutivo, maníaco depressivo... Genial. Uma vez escutei um negócio estranho, meio bicho grilo: “se você ainda está vivo não é tão bom assim, ainda tem algum lance pra aprender”. Pode ser. Acho que preciso aprender a ficar sozinho. Acho também que esse é um dos meus maiores medos – o silêncio, ficar sozinho e em silêncio. Acho até que foi por isso que não morri ainda. Hoje, por causa do que o Leo Vinhas escreveu, fui matar saudade do timbre do meu ex-baixo, o  fretless - Eu sou assim mesmo –, e acabei ficando com mais saudade ainda. Saudade das canções, das pessoas, do barulho que as vozes fazem. Acho que tenho ficado tempo demais sozinho.

rkjazz - 13/05/2006 às 02h00 AM

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E o Leo Vinhas escreveu sobre o mais novo trabalho do Igor Ribeiro (nosso irmão mais novo). Confiram aqui

 

para ouvir o os discos Solitude e Bizri aqui

rkjazz - às 01h13 AM

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Ta certo, eu tenho uma porrada de paranóias, e daí? Quem não tem? Você mesmo tem um monte e eu não fico pegando no teu pé por causa disso. Eu sei que isso atrapalha uma porrada de decisões que tenho que tomar, eu sei. Mas será que se eu não tivesse esses “meus medos”, seria esse cara que você conhece? Heim? Não vou fazer terapia porra nenhuma. Não preciso ficar falando minhas coisas com estranhos e se você não dá conta, posso muito bem procurar outra garota. Na verdade, não são tantas paranóias assim, mas tem uma que é foda. Só de pensar me dá um troço. Essa me persegue desde que comecei a trampar em botecos. Era eu quem abria a casa. Ficava lá, arrumando as coisas, checando estoque, essas porras que a gente tem que fazer quando trabalha em boteco. Tinha um outro cara que chegava logo depois. Esse cara não conseguia ficar sem ouvir música. Ele chegava e ligava o rádio. Isso foi me encanando. Sempre no mesmo horário ele chegava e ligava o rádio. Aí começou a paranóia. Sabe qual era a música que tocava sempre no horário que o cara ligava o rádio? Sabe qual era a primeira coisa que eu ouvia no meu dia? Zeca Baleiro, cantando Dodói. Cara...Depois de um tempo, quando o cara chegava pro trampo, me dava pânico em saber que ele ia ligar o rádio e eu ia ter de ouvir Zeca Baleiro cantando Dodói. Você não tem noção do que isso causou em mim. Tentei deixar o rádio em outra estação, desligar da tomada, deixar pra tocar CD, mas o filha da puta era esperto e sacava logo o truque. Daí começava a ladainha “... Eu tava triste, tristinho...”.  Foi por isso, quando você foi ligar o rádio agora a pouco, eu tive esse acesso e joguei a porra pela janela. Só por isso.

rkjazz - 12/05/2006 às 01h43 PM

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 Pruma "atriz" aí. Você é mala mesmo...

 

Você é uma vadia mesmo, mas beleza, o que eu posso fazer? Todo mundo na festa percebeu que você é uma vaca, mas até onde eu sei a gente ta junto em um monte de coisa. Se não fosse essa de você dar uma de puta o tempo todo, a gente podia até pensar melhor esse negócio de alugar um canto pra morar. Podia até ser naquela cidade da Europa que você tanto gosta. Acontece que veio um monte de gente me dar conselho. Falar sobre como você se comporta. Falei que você é atriz. Acho que colou essa. Atriz...Por que você não é atriz?

rkjazz - às 01h05 PM

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Dia de perder a hora. Dia de coçar a bunda e olhar pro frio com cara de “e daí, grande merda!”. Dia de deixar a água cair. Dia de não tentar entender nada. Dia de ligar o som e sair pra comprar pão quente. Dia de desmarcar tudo que ta marcado. Dia de descer e subir pela escada. Dia de pegar o jornal e jogar de lado. Dia de andar descalço, aos solavancos, e acertar o dedinho na perna da cama com um sonoro “filha da puta!!!”. Dia de sacanear o gato. Dia bom, até que alguém cague com tudo.

rkjazz - às 12h46 PM

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A miséria é miserável. A fome é miserável. A inveja é outra coisa mais que miserável. Eu não falo inglês, nem francês ou alemão. Eu não falo “canadês”, ou norueguês ou que porra mais você achou que termine ou não em “ês”. Eu só tenho uma coisa dentro da boca, e é uma vontade fodida de cuspir bem no meio da onde você colocar os olhos... e o nariz..

rkjazz - 10/05/2006 às 12h09 AM

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Tem essa que o destino nos prega às seis da manhã escura, de cuecas, remela nos olhos e não sabendo direito que lugar é esse. Tem essa de estar no lugar errado, no dia errado e o relógio errado, que mostra a cagada que está pra acontecer. Hoje é alguém que eu não conheço, não fui apresentado, por isso não tenho mais sonhos ambiciosos, só o que posso tocar com as mãos. Penso que se conseguir chegar inteiro até o fim da tarde, já é uma grande coisa. Nunca morei em casa que tem sótão. Sempre achei que os fantasmas estavam lá, só esperando as criancinhas subirem, dar uma espiada, pra invadirem os seus corpos e tomarem as suas almas – E tem essas porras de escadas perigosas. Agora sei que os fantasmas estão atrás dos postes, na rua, atrás das portas de desconhecidos que te oferecem um gole de vinho em copo de extrato de tomate, eles estão estacionando motocicletas invisíveis, eles estão entre as cobertas, entre os dedos, em toda a parte - Os do sótão eram apenas a minha imaginação. O destino me faz escovar os dentes, desconfiado. A toalha parece no lugar certo, mas não está, ou será a cor diferente? As janelas sujas, o tapete com marcas de bebida nacional e paraguaia. Dos jornais espero sempre a mesma notícia, e na parte de artes, um funeral. O do meu amigo foi comovente. Depois ele virou um fantasma e canta pelos becos em troca de solidão e cachaça da boa. Tenho uma vida barata. Não sei se devo aumentar a aposta, não tenho cobertura. O destino me fez agora perceber que os azulejos do banheiro não são iguais aos do meu sonho. Devo ter acordado em outro lugar daqueles.

rkjazz - às 12h02 AM

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TG É INDICADO AO PRÊMIO DYNAMITE

Banda concorre na categoria "Melhor Álbum Pop"

Divulgados os indicados ao Prêmio Dynamite de Música Independente – Melhores de 2005. São 21 categorias e quase 400 nomes na disputa. A banda curitibana Terminal Guadalupe concorre na categoria MELHOR ÁLBUM POP pelo disco "Vc vai perder o chão". A votação é aberta ao público. Começa nesta segunda-feira (8) e vai até 30 de junho. Basta acessar http://www.dynamite.com.br/premio e pedir a sua cédula. Lembre-se: o TG concorre na categoria MELHOR ÁLBUM POP.

O álbum já conquistou o Prêmio Laboratório Pop, concedido pela revista homônima carioca, de Melhor Disco Independente de 2005. Ajude o TG a manter a trajetória vitoriosa de "Vc vai perder o chão". Vá lá, use todos os seus e-mails e ajude a banda. Para reforçar: a categoria é MELHOR ÁLBUM POP.

rkjazz - 07/05/2006 às 06h46 PM

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A grande felicidade é não ter de ir trabalhar pela manhã, bem cedo. A grande felicidade é um café quente, com pão de ontem e manteiga. A grande felicidade é Schumann tocando pra você de cuecas, e um sol fino lá fora. A grande felicidade é uma noite tranqüila e sem sonhos pra atrapalhar. A grande felicidade pode ser você enquanto toma banho, pra sair de encontro ao inferno do teu dia. Eu vou ficar torcendo por você daqui, do meu trono de mentiras.

rkjazz - 04/05/2006 às 01h01 PM

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Ela trabalha como vendedora de charutos e outras bugigangas num cassino. Uma espécie de camelô de alta classe. Com suas grandes pernas de fora, com uma roupa colorida, que chama atenção mais pela falta de comprimento que do excesso de cor. Ela e seus olhos castanhos, ela e seus seios perfeitos, ela e seu perfume inconfundível, mesmo em meio a toda aquela fumaça. Apesar de não parecer, o trabalho no cassino paga bem e eu posso ficar aqui, dentro do quarto, por dias, sem nada pra fazer. Sou uma espécie de talismã que ela encontrou na lata do lixo, ou coisa parecida. Ela diz que dou sorte. Acho que ela está desesperada, mas quem sou eu pra quebrar os sonhos de alguém? Tem um bom estoque de vinho dentro e fora da geladeira. Tem um bom estoque de perfumes também – se acabar o vinho. Ela aparece sempre quando o sol já está alto e dorme o dia inteiro. No quarto escuro. Então eu dou uma volta pelo motel, vou até a piscina, mas não entro na água. Não sei nadar. Fico espalhado por uma mesa com meu Club Soda ou um vinho com gelo. Tudo por aqui derrete se você não tem um bom suprimento de gelo por perto. O gelo também derrete, mas é agradável. Uma vez ou outra, esqueço os óculos escuros, então tenho que ficar por baixo do telhado. Isso é meio ridículo, mas a claridade cega os desavisados. O dono do motel me chama de velho vampiro. Eu o chamo de grande filho da puta. Somos uma espécie estranha de amigos. Jogamos damas e xadrez. Ele tentou me roubar no pôquer e eu acertei ele na testa. Ele guarda uma grande e prateada .45 sob o balcão. Volta e meia, algumas meninas, que não devem passar dos 14 anos, saem pela porta dos fundos, cuspindo alguma coisa que não é o chiclete. Não costumo me meter nos assuntos alheios, mas isso me motiva pra vencer o desgraçado em qualquer que seja a disputa. Ela diz que eu trago sorte. Nunca acreditei, mas como disse antes, não sou do tipo que desfaz sonhos. É estranho pensar que sorte dou pra ela agora que está deitada numa maca de ferro, com hematomas por todo o corpo, com a sua roupa colorida em frangalhos. Com os olhos castanhos pra sempre fechados. Ela ainda tem aquele perfume inconfundível.

rkjazz - às 12h52 PM

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Existe um rio de águas sujas que corta a cidade de oeste para o leste. Ele quase seca e congela no inverno. No centro e nos bairros ricos, ele corre dentro de grandes manilhas, que não evitam o seu mau cheiro. Na parte pobre, bom, nem é preciso dizer como ele é quando cruza a parte pobre, a não ser que você seja um destes ricos boçais e nunca tenha ido à parte pobre da cidade, você pode imaginar. Big Joe – como ele gosta de ser chamado - está numa das margens, num barranco, na varanda do seu barraco com seu violão. Está sentado numa espécie de cadeira de balanço sem braços. Fumo de rolo na boca “para engrossar a voz” atenuando o cheiro de carniça do bairro todo.   Ele mesmo fez o violão, com pedaços que achou no lixo, e as canções que canta. Ele mesmo fez o barraco, as cadeiras e a mesa, onde bebo uma cachaça com cerveja. “Tudo isso aqui, até onde a vista alcança, é um monte de merda, um monte de merda barata – diz ele dedilhando as cordas. Tenho 86 anos e não sei nada da vida, passei a maior parte tentando ficar vivo, hehehe. Não conheço isso que você chama de música, pra mim é só uma coisa que invento pra não ficar quieto”. O violão não afina, as letras são feitas na hora, nunca anotadas (ele não sabe ler nem escrever), mas nada disso importa. Os versos saem fáceis da boca enrugada do homem preto. As notas são perfeitas naqueles dedos tortos e pretos como carvão. “Minha companheira falou que era uma “gemeção” sem fim isso que eu faço. Sei lá, acho que ela tava certa. É só uma “gemeção”, no fundo. Ela morreu. Enterrei ali atrás, perto daquela planta ali. Dois olhos que nunca me deixaram dormir por isso trabalhei tanto que sou torto para o lado” – mais um lamento torto do velho. O pouco que eu sei do blues, é que ele precisa de uma alma pra existir. Uma alma perturbada que é vendida numa encruzilhada da vida em troca do talento pra sofrer e cantar isso pra quem quiser ouvir. Uma alma pra passar a eternidade no inferno – mas já não é o bastante o que ela passou por aqui? Nunca vou saber. Dou adeus, já bastante bêbado, ao velho Joe e seu violão. O cachorro me segue por alguns metros, mas percebe que não vai ter nada em troca e volta pra perto do seu velho e preto dono. Acho que eu encontrei o blues...Agora onde está o demônio pra coisa toda continuar?

rkjazz - 02/05/2006 às 04h59 PM

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